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11 junho 2010

Desmotivação

Estava de novo deitada na cama. Parecia-lhe que sempre estivera ali. Definitivamente estivera sempre ali. Passava tanto tempo deitada... Também era indiscutível que ali era o lugar mais confortavelmente seguro que poderia existir. O colchão era macio e alto. Talvez tivesse mais de um palmo de altura. E caia-lhe tão bem o corpo. Acolhia as dores e o cansaço. Por vezes sentia um cansaço absoluto e profundo...
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Naquele quarto, por inteiro, imperava o caos. Não queria pensar no assunto. Também não gostaria de ter que fazer nada a respeito. Suspeitava que a situação fosse irreversível, e divertia-se vagamente com isso. Em alguns cantos e superfícies acumulava-se uma grossa camada de pó; sem dúvida não eram limpos há anos...
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Precisava tomar banho. Tanto melhor não estivesse menstruada. Ao pensar nisto lembrou-se de registrar mentalmente que precisava preocupar-se em conseguir algum dinheiro para comprar um pacote de absorventes íntimos. Precisa escovar os dentes também... Teria uma escova de dentes? Sabia que sim, mas riu-se de pensar que não.
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09 junho 2010

Rainha

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A Rainha, pela primeira vez alheia ao seu mundo, buscava um refúgio para amargar sua solidão, indo encontrá-lo nos recantos esquecidos dos jardins. Naquele outono, a natureza, em vertiginosa decadência, ainda vencia. Os jardineiros, há algum tempo, haviam parado de recolher as folhas caídas, que agora se amontoavam em todos cantos, cobrindo os gramados e caminhos de pedra. Os arbustos, antes podados em formas esculturais, por vezes extraordinárias, deformavam-se. Já não se viam flores, e ventos gélidos, prelúdios do inverno, balançavam as árvores. Mas, em verdade, os jardins apresentavam uma beleza inquietante, fruto de uma força indômita que seguia soberana e silenciosa.

Naquela manhã insensível, a Rainha caminhava, mais uma vez, pelas calçadas de pedra, recentemente lavadas por uma chuva tímida. Ia costeando os canteiros desfolhados, guiada inconscientemente pelos pés que já conheciam os lugares mais reconfortantes. Por um instante, deteve-se extasiada diante de um conjunto de árvores particularmente extravagante, suas copas cobertas de berrantes cores outonais. No momento seguinte, o vento varria-lhe novamente os pensamentos. Distraída, continuou seu caminho.
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08 junho 2010

Um lugar não muito distante

Esta história começa em um lugar não muito distante. Lugares muito distantes soam-me desabitados, nada convidativos e um tanto quanto inatingíveis (no que muitas pessoas concordariam comigo). De toda forma, esta história, em verdade, começou em um lugar não muito distante, conforme é sabido.

É claro que um lugar não muito distante assim o é, dependendo do lugar em que você próprio encontra-se. Se você está próximo demais (mais do que seria saudável) de edifícios de concreto, veículos que vomitam fumaça, e hordas de pessoas desagradavelmente desconhecidas e apressadas, talvez você esteja longe demais. Mas só talvez.

Muito possivelmente você já esteve próximo ao lugar a que me refiro. Enquanto estava desatento (ou atento às coisas erradas), atrás dos erros e da poluição, depois de duas ou três colinas, e, talvez, um rio, esta história começava. Exatamente onde o ar é leve e onde poderíamos encontrar, sem dificuldade, um cavalo pastando...