22 junho 2010

É preciso estar vivo para morrer

e viver para morrer.

E ele tornou os olhos para o céu.
De joelhos em terra.
Não via nada.
Mas seu coração, irriquieto em seu peito, dizia-lhe.
E ele ouvia-o.

Nuvens negras, pesadas infinitamente, imensuráveis, aproximavam-se.
Vinham de longe.
Tão longe quanto se pode estar perto.
Sorrateiras, deitavam seus negros véus sobre os pântanos.
Consumindo a vida, respirando felicidades.

Avançavam em dobras e curvas de tal forma voluptuosas.
E algo de escalarte por ele escorria.
Lágrimas não lhe molhavam a face pura.
Não obstante, lhe cortavam em fogo por dentro.
E aquelas, as nuvens, temíveis. Temerosas.

Enquanto o poder ele deixava escorrer-lhe pelos dedos.
Enraizava-se à terra, sagrada.
E aquelas outras avançavam.
E avançaram.
E cobriram-lhe, e a tudo, o corpo que pesava.

Enegreceram-se mais.
Em rodopios miravam os céus.
Infinita torre de vaporosas formas, volutas e espiras.
Pareciam sustentar o firmamento.
Mas esse, em verdade, acolhia. Recolhia seu filho.

Puro cristal.
Em estilhaços a vida fez.
De sentimentos mais enlevados.
E verdades. E mais mentiras.
E a eternidade do momento.

E tais nuvens recolheram-se.
Nobre dever cumprido.
Ele, já conduzido ao infinito.
Repousou no seu leito.
E repousou.

Segredado pela primeira vez, não certamente, em Novembro 2006.

Um comentário:

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