22 junho 2010

Deita-te em lágrimas

William-Adolphe Bouguereau (1825 - 1905) - The Day of the Dead (1859)
Imagem: Wikipédia - domínio público.


É preciso estar vivo para morrer

e viver para morrer.

E ele tornou os olhos para o céu.
De joelhos em terra.
Não via nada.
Mas seu coração, irriquieto em seu peito, dizia-lhe.
E ele ouvia-o.

Nuvens negras, pesadas infinitamente, imensuráveis, aproximavam-se.
Vinham de longe.
Tão longe quanto se pode estar perto.
Sorrateiras, deitavam seus negros véus sobre os pântanos.
Consumindo a vida, respirando felicidades.

Avançavam em dobras e curvas de tal forma voluptuosas.
E algo de escalarte por ele escorria.
Lágrimas não lhe molhavam a face pura.
Não obstante, lhe cortavam em fogo por dentro.
E aquelas, as nuvens, temíveis. Temerosas.

Enquanto o poder ele deixava escorrer-lhe pelos dedos.
Enraizava-se à terra, sagrada.
E aquelas outras avançavam.
E avançaram.
E cobriram-lhe, e a tudo, o corpo que pesava.

Enegreceram-se mais.
Em rodopios miravam os céus.
Infinita torre de vaporosas formas, volutas e espiras.
Pareciam sustentar o firmamento.
Mas esse, em verdade, acolhia. Recolhia seu filho.

Puro cristal.
Em estilhaços a vida fez.
De sentimentos mais enlevados.
E verdades. E mais mentiras.
E a eternidade do momento.

E tais nuvens recolheram-se.
Nobre dever cumprido.
Ele, já conduzido ao infinito.
Repousou no seu leito.
E repousou.

Segredado pela primeira vez, não certamente, em Novembro 2006.

16 junho 2010

Ó, doce despedida...

E o sonho continua...

Quebrando o silêncio, tua voz excita-me a imaginação. Teu perfume impregna-se, luxuriante, nas minhas roupas e também em meu espírito. A noite precipta-se inopinadamente para o fim. E estaremos separados antes da primeira luz da alvorada alcançar-nos. Nosso amor só existe na escuridão, protegido nas escamas das suas asas.

Esgota-se nosso tempo, mas sei que só por hoje. Não obstante, inquieta-me o espírito. Como poderemos nos ver novamente? Quando estaremos juntos mais uma vez? O fogo que anima meus olhos escorpioninos somente se aplaca quando eles repousam contemplativamente em ti. Ainda estou sedento. Não poderia deixar-te partir.

Antes de minhas mãos abandonarem as tuas, de encontro às paredes, conduzimo-nos ao último beijo, ao mais profundo e intenso. Mas não em lascivos intentos, e, sim, em significado. É preciso que entendas todo o meu amor. Dedico-te meu coração, este mesmo que já não pode suportar mais dor.

E após algumas palavras e breve silêncio, os corpos afastam-se, os braços retesam-se, os dedos procuram-se, por fim se perdendo. Os passos levam-nos, uma vez mais, por caminhos distintos...

11 junho 2010

Desmotivação

Estava de novo deitada na cama. Parecia-lhe que sempre estivera ali. Definitivamente estivera sempre ali. Passava tanto tempo deitada... Também era indiscutível que ali era o lugar mais confortavelmente seguro que poderia existir. O colchão era macio e alto. Talvez tivesse mais de um palmo de altura. E caia-lhe tão bem o corpo. Acolhia as dores e o cansaço. Por vezes sentia um cansaço absoluto e profundo...
(...)

Naquele quarto, por inteiro, imperava o caos. Não queria pensar no assunto. Também não gostaria de ter que fazer nada a respeito. Suspeitava que a situação fosse irreversível, e divertia-se vagamente com isso. Em alguns cantos e superfícies acumulava-se uma grossa camada de pó; sem dúvida não eram limpos há anos...
(...)

Precisava tomar banho. Tanto melhor não estivesse menstruada. Ao pensar nisto lembrou-se de registrar mentalmente que precisava preocupar-se em conseguir algum dinheiro para comprar um pacote de absorventes íntimos. Precisa escovar os dentes também... Teria uma escova de dentes? Sabia que sim, mas riu-se de pensar que não.
(...)